Escassez de talentos em TI ou busca pelo esquilo azul?

Existe ou não escassez de talento técnico nos EUA. Por sua vez, líderes corporativos dizem que a inabilidade americana de educar alunos suficientes em ciências, tecnologia, engenharia e matemática deixou as empresas norte-americanas em uma piscina de talento perigosamente rasa.

Pode-se argumentar que tal escassez é, em parte, resultado de práticas passadas de outsourcing, que desencorajam estudantes americanos a buscar carreira em TI.

Dentre as soluções defendidas pela classe gestora está a expansão do programa de visto H-1B, que visa “ajudar empregadores que não conseguem, de outra forma, obter as habilidades necessárias para o negócio com a força de trabalho americana, autorizando o emprego temporário de indivíduos qualificados que não seriam, de outra forma, autorizados a trabalhar nos Estados Unidos”, como coloca o Ministério do Trabalho dos EUA.

Empresas de tecnologia insistem que não conseguem contratar os talentos que precisam. O CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, disse a mesma coisa, na semana passada, em uma declaração no Code.org. E Laszlo Bock, vice-presidente sênior de operações de pessoas do Google, disse em uma declaração em janeiro: “No momento em que a economia americana mais precisa, nossas políticas de imigração estão oprimindo a inovação. A cobertura 2013 do visto H-1B, que permite que talentos estrangeiros, altamente capacitados, trabalhem, temporariamente, nos EUA, foi esgotada em junho de 2012, impedindo que empresas de tecnologia recrutem algumas das mentes mais brilhantes do mundo.”

O recém-apresentado Ato de Inovação da Imigração de 2013 pretende aumentar a cobertura do visto americano H-1B, entre outras mudanças nas leis de imigração.

Porém, a escassez de talento pode ser apenas mais uma forma de descrever a relutância em pagar o piso de mercado por talento. Como Peter Cappelli professor de gestão e diretor do Centro de Recursos Humanos da Escola de Negócios Wharton, colocou no The Wall Street Journal, em outubro de 2011: “Algumas das queixas sobre a escassez de talento reduzem-se ao fato de que empregadores não conseguem fazer com que os candidatos aceitem os salários oferecidos. É um problema de [im]possibilidade financeira, não de escassez de habilidades.”

Embora a Dow Jones Industrial Avarage tenha sugerido, há alguns dias, o retorno do otimismo financeiro, a taxa de desemprego nos EUA ainda não é baixa o bastante para evitar que os profissionais desempregados americanos – especialmente aqueles com treinamento técnico – ofendam-se com empregadores dispostos a contratar profissionais estrangeiros.

Norman Matloff, professor de ciências da computação na Universidade da Califórnia, em Davis, afirma que profissionais de TI estrangeiros são populares nas empresas porque são, de fato, “servos por contrato”. Trabalhadores estrangeiros não têm os mesmos direitos dos trabalhadores americanos: por exemplo, se eles são patrocinados por um green card, eles não podem pedir demissão ou procurar emprego em outra empresa sem reiniciar o processo do green card.

Trabalhadores estrangeiros trazidos aos EUA sob tais restrições participam em um tipo de tráfico de pessoas. Não há conotação sexual; mas é uma prisão intelectual.

Impedir que profissionais aceitem melhores ofertas em outros empregos é muito importante para empresas de tecnologia, porque a saída de profissionais essenciais de um projeto pode atrasar todo o projeto por meses.

“Se você tem um projeto urgente em andamento em sua empresa, você não quer que o engenheiro te deixe na mão por que recebeu uma proposta melhor em outra empresa”, disse Matloff em entrevista por telefone. “Com um funcionário americano, você não tem como impedir isso. Com um funcionário estrangeiro, se ele/ela estiver em processo de green card, ele/ela está, basicamente, preso com você.”

Acorrentar talento técnico é tão importante que a Adobe Systems, Apple, Google, Intel, Intuit e Pixar tinham acordos, por anos, de não contratar funcionários umas das outras, até que o Departamento de Justiça dos EUA forçou as empresas a encerrarem o acordo com a ameaça de um processo antitruste. O Departamento não conseguiu, no entanto, fazer com que as empresas admitissem qualquer delito.

Testemunhando, há alguns dias, em favor do IEEE-USA, um grupo representando mais de 20 mil profissionais técnicos e estudantes, Bruce Morrison disse ao subcomitê congressional de políticas de imigração que as necessidades de talento das empresas americanas seriam mais bem atendidas com a desregulamentação do processo que permite novas contratações com residência permanente. Isto permitiria que trabalhadores estrangeiros participassem do mercado de talento de forma mais justa.

“Se o empregador estiver disposto a pagar uma taxa substancial para patrocinar um trabalhador estrangeiro por um green card – o que significa que ele/ela pode pedir demissão se for mal pago – é prova sólida de que o empregador precisa das habilidades do trabalhador”, disse ele considerações preparadas. “Mas, se o empregador estiver disposto apenas a pagar por um trabalhador que não pode pedir demissão sem voltar ao início do processo do green card, isto indica que o empregador está mais interessado no caráter contratual do visto do que no talento do trabalhador.”

Além de serem contra o tratamento de trabalhadores estrangeiros como “servos por contrato”, críticos ao programa H-1B o veem como um facilitador da descriminação por idade.

Não é uma questão simples, porque a idade não deve garantir emprego para os que não possuem as habilidades necessárias. Como meu colega Jonathan Feldman apontou recentemente, “existe uma enorme diferença entre se livrar de pessoas por que elas estão velhas e afastar pessoas que não estão cumprindo o esperado. Para ser ainda mais preciso em meu argumento: o corte de gastos bem pensado não equivale à descriminação por idade.”

Porém, Feldman também nota que é difícil provar a discriminação por idade.
É difícil provar porque as empresas não são transparentes na forma com contratam ou demitem. Elas precisam ser.

As empresas exigem transparência de possíveis funcionários, que devem revelar todo tipo de informação. Mas, eles não têm acesso às exigências de contratação ou decisões.

Como pessoas de fora podem saber se uma empresa esgotou suas opções antes de recorrer à contratação de estrangeiros? Não sabem.

Um dos efeitos da falta de transparência é que os funcionários não têm uma forma de avaliar se um anúncio de recrutamento representa uma necessidade legítima ou se é apenas uma farsa que busca um “esquilo azul”.

“O esquilo azul é algo que não existe na natureza, portanto, um anúncio de emprego que busca um esquilo azul é uma vaga predestinada a não ser preenchida.”

Uma de minhas fontes, que pediu para não ter o nome divulgado por temer repercussão, contou que foi convidada por uma grande empresa de tecnologia para uma entrevista para um cargo de gestão de programa. A pessoa aceitou a entrevista com hesitação, porque o cargo não era tão adequado. Mas a empresa parecia ainda menos interessada. Não ofereceu nenhum tipo de informação para o entrevistado sobre como se preparar para a entrevista ou quem estaria presente. A pessoa que conduziria a entrevista apareceu com 20 minutos de atraso e ninguém tinha o currículo do entrevistado. Minha fonte disse que estava claro que a empresa não estava levando aquela entrevista a sério.

Segundo ela, tais cargos geralmente listam exigências para o esquilo azul – como ter cinco anos de experiência com uma tecnologia de apenas três de existência – como reflexo do fato de que aquele anúncio de emprego está ali apenas para satisfazer os requerimentos estatuários no processo de green card, para considerar trabalhadores americanos antes de contratar um trabalhador estrangeiro mais barato.

Matloff observou que esta é uma prática comum, mas enfatizou que é um engano que o programa H-1B inclua um requerimento que considere americanos antes de contratar alguém de fora. “Se há um processo de green card em andamento, que não exige buscar um americano antes, então os requerimentos para o esquilo azul são comuns”, disse ele.

Matloff disse que nem todos os esquilos azuis servem para acobertar alguma coisa. Alguns deles, disse ele, são simplesmente o reflexo do fato de que os departamentos de recursos humanos precisam de alguma forma de filtro para os inúmeros currículos que recebem. Porém, acrescentou ele, em alguns casos, exigências excessivamente específicas refletem as habilidades reais de estrangeiros que já foram contratados.

“A camadas de imigração, como um grupo, já aceitam isso explicitamente”, disse Matloff. “Eles dizem que se o empregador já encontrou o estrangeiro que quer contratar, então, é ridículo passar por toda essa charada para encontrar um americano”.

Sutilidades à parte, as empresas engajadas em tais práticas estão violando o espirito, senão a lei escrita. E estão fazendo como resultado da única coisa que criticam nos trabalhadores: preguiça.

Muitos empregadores nos EUA parecem ter desistido de treinar funcionários, devido à facilidade de mergulhar na piscina de talento estrangeira. Encontrar pessoas boas e treina-las leva tempo e custa dinheiro.

Se os negócios quiserem que suas queixas sobre a escassez de talento sejam levadas a sério, eles precisam suportar tais queixas com processos de contratação mais transparentes. Matloff acredita que isso seja impraticável, porque a adequação de um funcionário sempre estará nos olhos do observador.

Talvez sim, mas pode haver olhos mais bem treinados nos processos de contratação, sem transformar isso em um fardo regulatório. Se as decisões de contratação enfrentassem uma votação envolvendo toda a empresa, por exemplo, mérito ou falta de mérito seria mais óbvio. E, entre os que buscam empregos técnicos, concursos podem ser oferecidos como forma de avaliar possíveis funcionários em um contexto separado da disposição de aceitar salários abaixo do piso.

Matloff defende que profissionais estrangeiros não são melhores ou mais brilhantes dos que os americanos. Deixe que a América corporativa prove que trabalhadores estrangeiros supostamente essenciais não têm colegas por aqui.

Texto de Thomas Claburn para a InformationWeek EUA
http://itweb.com.br/106656/escassez-de-talentos-em-ti-ou-busca-pelo-esquilo-azul/